Como Escolho Meu Médico?

Como escolher seu medico

Escolha implica renúncia; é  certo! Quando você escolhe o lápis de cor azul, deixa de escolher todas as outras cores. Com médico é a mesma coisa: se você precisa de um médico para uma questão de saúde, vc vai ter que escolher. E as possibilidades são muitas…

Como escolher seu medico

Primeiramente, uma explicação: não se cobre de ser igual aos outros. Escolhas são processos tão complexos que uma escolha sua aos 20 anos não vai ser a mesma aos 48, e durante a idade de 48 vc pode fazer escolhas diferentes dependendo do contexto emocional. Então, desista de padrões binários, tipo “o certo é x, o errado é y”. Não, em vez disso faça uma reflexão profunda, consigo mesma; funciona!  Escute seu discernimento.

E escolhas são simples: elas são pessoais, levemente racionais e muito intuitivas. Confie bastante em você. Você achará a melhor opção dentre as existentes. O importante é você ter noção de que está optando, e saber de todas as opções.

Quem escolhe após avaliar todas as possibilidades escolhe melhor.

E quais as maneiras de escolher um médico? Olha, Saúde é um bem, e nosso corpo dá uma safra só. Não dá pra repor qualquer parte  caso haja dano severo, não é? (tá, existem transplantes e próteses, mas não complicaremos o raciocínio aqui rsrsr)  Então, é uma decisão importante qual profissional irá cuidar da sua saúde.

Vou comentar vários modos de escolher um profissional. E várias maneiras de combinar estes modos. Ou não. A escolha é sua. Tratarei de maneiras comuns a exóticas, de simples a sofisticadas. De escolher um profissional do convênio, ou o mais próximo do seu trabalho, ou mesmo escolher o médico das estrelas  (se você se sente uma, qual o problema, não é?)

Vamos por partes? Aos poucos vamos garimpando dicas de como escolher bem seu médico!

Vem comigo.

Convênio

Então, a  maneira mais comum de se escolher seu médico é pelo livrinho do convênio.

Não é objetivo aqui avaliar a  complexa relação médico x convenio x paciente, seus custos, sua forma de funcionamento.

Mas é importante saber que, ao escolher um médico do convênio, você está escolhendo primeiramente o convênio, não o médico. Tenha ciência disso. Opções não se regeneram para escolhermo-las de novo.  Tudo é finito. Se você tinha 100% de escolha, ao escolher consultar pelo convênio você já usou, digamos, 20% das suas possibilidades de escolhas. Então, as próximas escolhas serão com 80% restantes de possibilidades.

Então, se você priorizou um médico do convênio, e irá escolher o local mais fácil para você ir, já terá apenas 80% de escolha para o local. Uma vez escolhido o local (novamente você fez uma escolha, que implica renúncia), talvez sobrem 60% de poder de escolha para outros fatores (médico homem, médica, mais jovem, mais idoso, especialista em acne,  etc).

Assim são as escolhas, e isso não é problema. Problema é não ter consciência disso.

Há ótimos médicos pelo convênio. Porém, há ótimos médicos também fora do seu convenio (que atendem outros planos mas não atendem o seu, ou que simplesmente só atendem particular). Estes necessariamente estarão fora da sua escolha, porque você escolheu consultar com um médico do convênio. Nada de errado.

Mas você precisa ter ciência disso.

E, por fim, lembre-se que atendimento por convênio tem uma dinâmica própria. É um atendimento de baixo custo e baixa remuneração  para todas as partes, mais fluido, resolutivo, de quem quer resolver um problema de saúde de modo mais sucinto e despachado. Sem firulas. Se este não é seu perfil (ser objetivo),  reavalie sua opção.

Médico muito procurado

“Nesse todo mundo vai”, “ele é muito procurado”, “consultório cheio”, “só tem horário pra 6 meses”. Então… provavelmente o profissional é diferenciado, e excelente. Parabéns pra ele.

Mas pode ter uma certa “pegadinha”…. Já vi consultório cheio por causa de recepção pequena (rsrsr), consultório cheio por poucos turnos de horário semanal (agenda apertada por pouca disponibilidade de horários),  consultório cheio por muitos convênios atendidos naquele local, agenda só pra 6 meses por overbooking.

Overbooking? Em consultório de médico? Que absurdo!

Também acho absurdo, as pessoas marcam consultas, confirmam na véspera com a secretária, e simplesmente não vão à consulta. É cultural. Aí o jeito é marcar “extras” pra não ficar com horário vazio. Horário em consultório é muito caro. Triste né? Também acho.

Médico muito procurado pode ser também o…

Médico das estrelas

Nada a ver com medicina espacial, mais a ver com Marilyn Monroe, Madonna, Rihana. Médico de artistas e famosos.

É um convite à vaidade pessoal consultar com o mesmo médico que atende aquela sumidade do mundo artístico.

Artistas escolhem bons médicos, os melhores, né? Provavelmente sim, mas o que se vê muito é a prática da PERMUTA: o artista quer o tratamento x, de beleza, e empresta sua “entourage” (entourage é sua fama, seus seguidores, sua comitiva) ao médico, que se divulga e agrega à sua imagem valores como sofisticação e refinamento. Atrai atenção para o médico, que ganha alguns raios de luz dos holofotes.

E, como geralmente são médicos com imagem de refinamento, os tratamentos são mais caros. Aqui também o artista se beneficia: sua imagem social sobe, porque está “podendo fazer” tratamentos caríssimos. Só que ele não pagou nada por isso… rsrsrs

Estranho, né? Sim, mas este é o mundo. Não existe almoço grátis.

Mas então eu deveria evitar este tipo de profissional? Não, de jeito nenhum. Apenas saiba dos bastidores. E vá consciente. Pode ser que você encontre o médico da sua vida. Explico o por quê no item 11, o último.

Endereço!

É outra escolha comum: “quero um médico que fique perto de casa (ou do trabalho)”.

Novamente, tudo bem: são escolhas.

Mas você vai necessariamente perder profissionais que estão mais distantes e seriam muito resolutivos pras suas queixas.  Que poderiam ter mais insights de tratamentos e soluções mais próximas do que você gostaria e precisa. Vale a pena perder isso? Avalie…

E  vai aí uma questão importante: é um profissional que você vai ter que ir semanalmente, em sessões de tratamento, ou vai lá apenas a cada dois meses ou mais espaçado? Se as idas terão pouca frequência, precisa necessariamente ser um profissional próximo? Pense nisso.

Se não forem sessões semanais, se for um controle de uma consulta a cada semestre, qual o problema de escolher um médico de um consultório mais longe, mas que se adapte mais ao que você precisa? Lembre-se, é seu corpo, que só dá uma safra…

E quando se fala em endereço fala-se em outros “confortos” urbanos: ponto de ônibus perto, prédio com garagem, elevadores sem fila, prédio de visual bonito. Muitas vezes, sem se perceber, valoriza-se a experiência de ir àquela consulta, naquele prédio com requintes. É como uma ida a um shopping, uma grata experiência de saída da rotina.

Todas são experiências de valorização, de escolha dentre alternativas. O quesito “é fácil pra mim chegar até lá, ir até lá” é importante, mas lembre-se de que uma vez priorizado este ponto, outros pontos descem na escala de valorização (capacitação daquele profissional, custo de tratamento, pontualidade, flexibilidade de agenda, etc)  Eles terão peso menor, e podem ser importantes. Apenas pense nisso.

Você está escolhendo mais o endereço que o profissional.

Preço

Outra questão frequente. “Dr Fulano tem um precinho ótimo”. “Dr Sicrano é careiro”. A decisão é sua. Mas lembre-se: saúde é um dos setores em que o barato sai mais caro. Caro não só pela dor de cabeça de ter feito um tratamento barato e ruim, como pelas complicações que poderão surgir, e serão tratadas com procedimentos bem mais caros que o inicial. Imagine-se sendo levada após um acidente para um neurocirurgião, e alguém te avisa “fica tranquila, ele é o mais barateiro da cidade”. Que medo…

Então, preço é importante, mas talvez não deva ser o primeiro critério… Mas a opção é sua. Eu apenas tento deixar todas à mostra.

“Odeio médico que atrasa…” Quantas vezes esta frase já foi dita, não? Então sua escolha pode ser por pontualidade: ser atendida no horário, impecavelmente. É sua escolha, parabéns.

Só tenha em mente que, para ficar atento ao horário, o médico já vai começar sua consulta pensando em tempo, e assim vai permanecer até o final. Ele tem que terminar antes do horário do próximo paciente, já que ele preza ser pontual; a atenção dele  não vai estar 100% nas suas queixas, porque parte da atenção estará ocupada com  o tempo.

Muitos médicos deixam horários mais longos para consulta, justamente para não prejudicar o exercício profissional pelo tempo. Isso permite que ele trabalhe tranquilo. Mas talvez não dê pra fazer isso em atendimento de convênio (lembre-se, convênio é volume; faz parte da logica dele).

Organizar-se em função de horário torna o médico ruim? Bem provável que não, ele é apenas organizado, parabéns pra ele. Mas se você quer se sentar e discorrer sobre vários problemas, e ter uma consulta bem aproveitada (no sentido de poder resolver todas as suas dúvidas) você pode se decepcionar, porque o relógio é que manda na sua consulta.

Por isso muitos médicos atrasam, tem casos clínicos  mais pesados e casos mais leves,  há consultas que são resolvidas em 15 minutos, e outras levam 50 minutos. Apenas considere isto.

Não quero tomar seu tempo, vamos pro 5… rsrsrsr 

Conforto?

Pois é a maioria das pessoas gosta de ser bem tratada. De ter conforto, ter um ambiente de estar agradável na antessala da consulta, secretária afável, uma chaise longue pra se espreguiçar, café, água… Na verdade, todos gostam! Mas isso eleva o custo de um consultório. E muito. Então, quem privilegia este tipo de ambiente dificilmente conseguirá isso em um lugar de alta rotatividade de clientes, por exemplo em locais que atendem convênio (e olha aqui as opções brigando entre si, que interessante, não? Você já havia se dado conta disso? Uma exclui a outra).

Então, se você quer “momento”, na acepção da palavra, uma vivência agradável, num ambiente de conforto, pra falar de suas queixas, ter certeza que elas serão resolvidas, você está pensando em conforto.

Está escolhendo uma “experimentação agradável”. Escolha com carinho, e boa sorte. Sem esquecer que, por priorizar o conforto, outras escolhas terão menos espaço, por exemplo a…

Pesquisa em internet (google e afins)

Novos tempos, não é? Hoje na interface de tráfego de internet conseguimos ir atrás do que desejamos! A medicina entrou nisso faz tempo. Muita informação pra todos os lados. Dr Google. Aí você pode procurar o seu médico através do site dele, ou de site que fornecem cardápios (palavra ruim, vou mudar rsrsr) de médicos dependendo da especialidade. Alguns até tem maneiras de privilegiar um ou outro médico, através de avaliações de pessoas que consultaram com ele. É uma boa, não? “Gente como a gente” falando se gostou ou não.

Sim, é excelente. Só tenha cuidado porque alguns anúncios são pagos, e algumas informações não serão tão espontâneas assim, há um viés de publicidade. Problema nenhum, desde que você esteja ciente disso.

Ou então procure nas…

Redes sociais

Rede social é um negócio interessante. Todo mundo chegou enfim aos 15 minutos de fama (ou mais ) prometidos pelo maluquete Andy Warhol lá nos anos sessenta. Ali, na troca de informações em grupos de anônimos, conversando entre si, você  pode obter dicas preciosas de profissionais ao seu gosto. E também de dar seu feedback. Inclusive ter a opinião de várias pessoas, ao invés de só uma. Talvez sejam informações mais fidedignas que em internet no geral, nos sites de busca.

Você descobriu médicos que pessoas parecidas com você gostam. E você própria dar o retorno àquele grupo.

Mas e sobre qualificação? Você gostaria de um profissional com qualificação x ou y? Então você talvez tenha que procurar …

Sites científicos

São plataformas digitais onde médicos que trabalham diretamente em pesquisa ou como professores colocam sua produção científica. Ali você sabe se tal médico tem mestrado, doutorado, se dá aula em universidades, etc. Se isso é importante pra você, vá em frente.

Posso apenas falar um porém? Bem, ainda que esteja ligado a instituição de pesquisa, ou dê aulas, etc, nós temos a cultura de que uma vez que uma pessoa seja genial em um setor, ela vai ser em todo o resto. A gente pensa assim, por exemplo,  quando pergunta um  cantor o que ele acha de política. Não é a área dele, porque ele haveria de ser genial também  naquilo, não é?  Entonces, um pesquisador será certamente um indivíduo muito estudioso, mas nem sempre o melhor pesquisador é o melhor professor, nem sempre o melhor professor vai ser o melhor médico, nem sempre o melhor médico vai ser o melhor médico PRA VOCÊ.

Estamos combinados? Faça sua opção, escolha um médico com produção científica, mas considere esta questão.

E lembrando que, para ser especialista, o médico tem que fazer residências e especializações que são 2 a 5 anos de formação além do curso de medicina, de 6 anos. Portanto, praticamente todo especialista já é pós-graduado…

Puxa, que confusão! Quanta alternativa. Existe pelo menos uma que seja mais simples e funcione?

Existe, e talvez a melhor de todas. Talvez o Santo Graal das escolhas rsrsrs Vamos falar de valores?

Aí chegamos à mais interessante e rica das formas de escolher: VALORES. Não, não estou falando de dinheiro rsrsr Estou, sim, falando de valores pessoais. Valores: tudo aquilo que vc acredita ser importante, ético, correto, e achar um profissional que também tenha aqueles princípios, como pessoa.

Se você não quer gastar muito com tratamento, você quer achar um profissional que preza tratamentos bons e de baixo custo.

Você pode ser  cristão, e querer um profissional com estes valores religiosos.

Pode ser alguém com perfil dinâmico, que não gosta de tratamentos demorados, gosta de atitudes terapêuticas resolutivas, rápidas. Aí escolhe um profissional com este modo de agir em condutas médicas.

Enfim, escolher um profissional com valores parecidos com os seus. É maravilhoso! São aqueles médicos que acompanhamos pelo resto da vida.

Mas como se escolhe isso? Realmente, não existe um catálogo de médicos divididos em valores pessoais, né? Valores são perceptíveis, mas não possíveis de dividir em listas… rsrsrs  Mas não se preocupe: este problema já foi resolvido há muito tempo.

Já ouviu falar em “boca-a-boca” (não é a respiração rsrsr) Boca-a-boca é um buchicho entre amigas, amigos etc, sobre um profissional bom em que foram. É quando aquela amiga sua do coração indica um médico para seus problemas.  E funciona. Qual a mágica? A mágica é que quem você escolhe para ser amiga, para ser próxima, geralmente tem valores muito parecidos com os seus. Seja gostar de academia, ter filhos na mesma escola, gostar de rock, geralmente as pessoas próximas tem afinidades. E se tem afinidades, e valores parecidos, provavelmente vao gostar dos mesmos tipos de profissionais.

Pronto, entendeu? É intuitivo, a humanidade faz isso há tempos…

É isso: escolha seu profissional, o profissional que você quiser. Escolha outro, escolha mudar, escolha permanecer a vida inteira com o mesmo profissional. Só não perca de vista o seguinte princípio: escolha implica renúncia, e escolhe melhor quem considera todo o leque de possibilidades.

Grande abraço

Obs: deixo aqui meu agradecimento à Dra Bel Takemoto, também dermatologista, que foi quem me entregou a pérola de frase “escolha um profissional com valores próximos aos seus”. Discutíamos sobre orientar pacientes a escolher profissionais, e esta frase encaixou-se de vez. E abriu o panorama para este artigo.